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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

LENDAS DE PORTUGAL - LXIII - ALCOBAÇA

A PADEIRA DE ALJUBARROTA

Dizem que era tão feia e tão grandalhona que muitas vezes se fazia passar por homem! Conta a lenda que terá nascido em Faro, onde o pai era taberneiro. Brites de Almeida, era o seu nome, apresentando seis dedos em cada mão! Desde criança que se mostrou de feitio desordeiro. Órfã aos 26 anos, vendeu o que tinha lá foi de vila em feira, adestrando-se no manejo das armas.
Apesar de tudo, um soldado alentejano pediu-a em casamento, tendo ela aceite se ele a vencesse em luta. Bem, o desgraçado ficou às portas da morte e Brites teve de desandar dali. Em Faro, embarcou para a Espanha, mas o barco em que seguia foi assaltado por piratas mouros, que a levaram para o Norte de África. E foi vendida como escrava.
Brites foi comprada por um homem que já tinha outros escravos portugueses. Pois ela combinou com eles matarem o dono e fugirem para Portugal. Assim aconteceu, mas na viagem de regresso, um temporal que acabou por atirar com o barco para a costa de Ericeira.
Julgando-se procurada por ter matado o soldado, Brites vestiu-se de homem e cortou o cabelo, tornando-se almocreve. E almocreve foi durante alguns anos. Até que um dia, farta de vagabundagem, foi parar a Aljubarrota, tendo sido admitida como ajudante de padeira. Ora por morte da patroa, ficou ela com o negócio, acabando mesmo por casar, já mostrando-se mulher, com um honrado lavrador.
Ora a 14 de Agosto de 1385, logo pela manhã, chegaram a Brites de Almeida, conhecida como Brites Pesqueira, os ruídos tremendos de uma tropa preparando-se para um combate. Sentindo ferver-lhe nas veias a vontade de lutar, agarrou na primeira arma que encontrou, decerto abandonada por algum ferido, e juntou-se, como um soldado mais, às tropas portuguesas.
Após a grande batalha da Aljubarrota, que se traduziu na rotunda vitória das tropas portuguesas e inglesas contra o invasor castelhano, Brites regressou a casa, contente, mas estafada. Porém, mal entrou na padaria, sentiu no ar algo estranho. Algum fugitivo castelhano estaria por ali escondido...


Então reparou que a porta do forno estava fechada, pelo que foi abri-la. E viu que estavam lá dentro sete castelhanos, fingindo-se os soldados adormecidos. Chamou-os, mas o pânico era tanto, que eles nem se mexiam. Ela, mesmo com a própria pá do seu ofício, deu-lhes tantas que os matou todos. Depois, galvanizada por isto, arregimentou gente e foi perseguir outros fugitivos, que estavam espalhados por toda a região.
Conta ainda a lenda que a pá de Brites de Almeida foi guardada como símbolo de Aljubarrota, e quando os Filipes foram reis de Portugal, o instrumento esteve entaipado numa parede. Seria retirado da parede quando D. João IV foi aclamado! E sempre que se comemorou a batalha, a pá de Brites foi exibida como relíquia! No entanto, com a idade, a padeira de Aljubarrota tornou-se numa calma esposa de lavrador...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

LENDAS DE PORTUGAL - LXII - REGUENGOS DE MONSARAZ

UM AUTARCA E DOIS PENEDOS

Tão importantes quanto as lendas são as figuras lendárias. E em Reguengos de Monsaraz há uma figura que está bem à altura do histórico e multissecular burgo de Monsaraz. Trata-se de Manuel Papança que quando tomou posse de presidente do município em 1851 (o município foi criado  onze anos antes), teve como primeiro cuidado pagar do seu bolso à Fazenda Nacional, dívidas de tensas, nada menos que oito conto de réis, o que era uma certa fortuna para a época. Para além dos chamados trabalhos correntes, como fazer os paços do concelho e calcetar ruas, edificar escolas, cemitérios, hospital, ele foi o principal promotor da compra, divisão e aforamento, em glebas, dos  vastíssimos territórios da Casa de Bragança, dando origem ao plantio de mais de um milhão de cepas, desenvolvendo assim a vitivinicultura da região.  E se, então, se falasse do vinho,há certas colheitas que também podiam enfileirar-se, no livro de registos das lendas! Mas prosseguindo com este autarca de meados de século XIX, verificamos que por não ter sido modelo, pelo menos não fez escola, era, isso sim,um lendário mãos largas com a própria fortuna, pois a sua Quinta Nova passou para asilo. E se em 1876 fez da sua casa o chamado celeiro dos pobres, com catorze contos mandou construir a igreja. Não foram frequentes figuras destas na planície alentejana.
Não só no concelho de Reguengos de Monsaraz, como noutros, do Norte ao Sul do País, há pedras a que as populações atribuem um papel entre o lendário e o supersticioso. Neste caso, em S. Pedro do Corval,temos a rocha dos namorados, o chamado Penedo Sombreireiro. É uma mole granítica que terá como que três a quatro metros de altura, com a estranha forma de um ovo invertido, com a parte mais larga em cima. Houve já quem o achasse razoavelmente parecido com um cogumelo.
Quando em passeios pelo campo, as raparigas costumavam passar por lá e lançar pedras para a parte superior. Porém, o lançamento deveria ser feito com a mão esquerda, decerto para dificultar o lançamento às que não fossem esquerdinhas ou canhotas! Ora se a pedra atirada ficasse no topo do penedo, a moça casaria brevemente, talvez nesse mesmo ano. Porém, algumas faziam lançamentos tão maus que não só a pedra não ficava lá em cima como até desfaziam as perspectivas de um ou dois casamentos, pois arrastavam um ou duas pedras que lá se tinham mantido no topo!


E de uma pedra passamos a outra, à Rocha dos Andorinhas. É outro pedregulho enorme, assente sobre outros dois penedos mais pequenos, ficando com algo da aparência de uma anta. Ora a parte superior tem uma grande cavidade a meio e duas mais pequenas aos lados.
Pois a lenda corrente é que um homem da Aldeia do Mato, ali perto, em tempos remotos, andara com aquele penedo enorme à cabeça, amparando-o com as duas mãos. Como era muito pesado, amolgou-se mais profundamente no sítio que assentava sobre a cabeça e mais brandamente onde tinha as mãos.

sábado, 28 de dezembro de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - LXI - REDONDO

SERPENTES E MOURAS

Numa noite de S. João, um rapaz da aldeia do Mato, no Redondo, vinha de um baile e por debaixo de uma 
árvore escutou uma voz que o chamava. Olhou para cima e viu uma rapariga que lhe disse:
"Enche as mãos!"
Um tanto atrapalhado ele encheu as mãos e os bolsos com uma data de porcarias. Quando acabou, ouviu de novo a voz:
"Vem-me buscar!"
Ele bem sabia que a rapariga estava em cima da árvore, mas teve medo. E, continuando a andar, mal deu dez passos sentiu um grande peso nos bolsos: eram libras de ouro. E ficou cheio de medo, tanto que, dali a pouco morreu. E morreu sem ter ido buscar a rapariga...
Pois para os lados do castelo de Valongo, neste mesmo concelho, havia uma cobra-moura que vivia num buraco. Sabia-se que quem, numa noite de S. João, fosse ao castelo e pusesse uma bacia de água no meio do pátio, via-se a moura ir lá pentear-se.

Também diziam os moradores do castelo que junto dele ouviam cavar de noite. Pois eram, as pessoas que de noite sonhavam que lá havia tesouros e iam verificar...
Já em Foros da Fonte Seca, ainda no Redondo, conta-se como lenda bem fundamentada historicamente, que andava um pastor a guardar gado numa herdade e encontrou uma pequena cobra. Achou-lhe graça e diariamente lhe dava uma tigela de leite. Ela ia crescendo e o pastor afeiçoou-se-lhe. Pois um dia ele teve de ir trabalhar para muito longe.
Passaram-se alguns anos e o pastor voltou à sua terra. Foi ao local onde a costumava encontrar e chamou-a. Ela apareceu, enrolou-se nele a pedir-lhe alimento. Com,o ele não o tivesse ali, ela começou a apertar o seu antigo benfeitor, até que o matou!
Já em Horta da Fonte (S. Sebastião Derrubado), havia um olival, e uma da oliveiras tinha um grande buraco no tronco. Ora, manda a tradição que se diga que aí se abrigava uma serpente a guardar uma caixa de moedas. Quem conseguisse abrir a caixa desencantava a serpente, só que a façanha deveria ter lugar à meia-noite e S. Sebastião Derrubado fica mesmo ao pé do cemitério. E a verdade é que por causa disto,ninguém se aproximava do pinhal, por muita vontade que tivessem de deitar a mão à caixa das moedas e, já agora, desencantar a serpente!
 Pois ainda há espaço para lhes contar que em Campinho, também no actual concelho de Redondo, havia um tanque para os animais beberem. No muro estava sentada uma rapariga muito bonita, que tinha ao pé dela uma tesoura  e um pente, ambos de ouro. Chegou ali um homem com uma burra e viu-a. Ela perguntou-lhe então o que é que ele escolheria, incluindo-a a ela. O homem viu que a tesoura era grande, mas o pente ainda maior e escolheu este. Então a rapariga transformou-se em serpente e antes de desaparecer por um buraco, disse-lhe:
"Sou uma moura encantada. Se me tivesses escolhido a mim, desencantavas-me. Assim, serei cobra mais cem anos!"

sábado, 30 de novembro de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - LX - CADAVAL

A MOURA DA SERRA DAS NEVES

Pois andava um caçador pela serra das Neves, que é como os do Cadaval chamam à Serra do Montejunto. Às tantas, viu uma linda rapariga em cima de uma pedra. Ia para lhe perguntar o que é que ela estava ali a fazer quando deixou de a ver. Num salto, ela meteu-se  por onde ele não viu. Ainda tentou aproximar-se, mas aquilo era tanto mato que não conseguiu.
Já decidido a vir-se embora, olhou outra vez e a rapariga estava outra vez em cima da pedra. Fez menção de lá ir, outra vez ela sumiu. De novo se pôs a caminho mas, pelo rabinho do olho, viu-a de novo na pedra. Entendeu então que já dali não sairia sem ter posto as coisas a limpo.
Voltando atrás, o caçador disse em voz alta:
"Se és coisa boa, diz-me o que é que queres. Mas se fores coisa ruim ou avantesma, desaparece."
A rapariga respondeu-lhe:
"Claro que sou coisa boa. O melhor é aproximares-te mais. Olha, vem por aquele  carreiro."
E ele assim fez, aproveitando o tal carreiro que ela lhe mostrou.
"Quero que saibas que sou uma moura encantada e vivo aqui nesta cova desde que os mouros viviam na terra. Ora se ele a desencantasse estava disposta a fazer dele um homem muito rico."
O caçador agradeceu muito e dispôs-se a fazer o que ela mandasse.
Entraram os dois na cova. Andaram de mão dada três dias e três noites por baixo do chão da Serra das Neves. Finalmente, chegaram a um grande bosque. Então ela, fugindo para um lado, disse-lhe que ia aparecer uma serpente com a qual ele teria de lutar. Se ele a matasse a moura ficaria livre e já poderia casar com ele.
Era uma serpente de grandes asas, que deitava fogo pela boca. Porém, corajoso, o caçador atirou-se a ela e num instante a desfez.
A moura, muito contente, pediu-lhe que ele se metesse pelo bosque até chegar a duas grandes pedras e que se metesse entre elas. Deu-lhe uma bolinha de oiro e ele que batesse com ela numa e noutra. Uma soaria a choco e a outra a ouro. A moura disse-lhe que o não poderia acompanhar por recear ficar outra vez encantada, mas para ele dar com as pedras deu-lhe uma trança do seu cabelo que lhe ensinaria o caminho.
E lá foi ele por ali fora, chegando às duas pedras. Seguindo as instruções da moura, lá deu com a pedra de ouro. Levantou-a e por baixo tinha um alçapão de acesso a um armazém carregado de coisas valiosas. E eram tantas e tantas as riquezas que ele teve de lá ir várias vezes carregá-las para tirar tudo.
Então, a moura disse-lhe que lhe prometera um tesouro imenso e já lhe dera, e se estava disposta a casar com ela, consentindo em baptizar-se primeiro. E pronto, ficaram felizes para sempre. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - LIX - MOURÃO

O EXPEDIENTE DO FUNDADOR

Mourão teve outra implantação, foi no território a que se chama Vila Velha, assinalado por alguns restos de construções. Terá sido uma praga de formigas, conforme indicam autores mais antigos, uma praga de romanos ou, o que parece mais interessante e viável, a mudança operou-se por uma questão de defesa, já depois de estabelecidos os principais reinos cristãos da Península Ibérica. Uma questão de mera estratégia no zadrez conjugado civil e militar. Porém, sabemos que a sede da igreja de Murão teve três lugares. O primeiro, naturalmente, na Vila Velha, o segundo no arrabalde, junto à muralha do castelo, e o terceiro onde hoje se encontra. Frei Agostinho de Santa Maria, a cujas palavras já recorremos noutro ponto, no seu Santuário Mariano, fala-nos, lendariamente, na mudança do primeiro para o segundo pouso. Voltamos à sua peculiar linguagem, dizendo-nos ele que na igreja matriz de Mourão...

... é tida em grande veneração humana antiga e milagrosa imagem da Mãe de Deus, a qual se tem por angelical, ou por obra das mãos dos Anjos e de sua perfeitíssima escultura assim se pode conjecturar. Invoca-se esta santa imagem com o título do Tojal, o haver aparecido entre umas moitas de tojo; e porque a sua festa se fez sempre em 2 de fevereiro, lhe dão também o t´titulo de das Candeias, ou da Purificação, alem de o confirmarem dois pombinhos que o menino tem nas mãos. A origem desta santa imagem é tão antiga, que só se refere por traduções conservadass na memória dos moradores daquela vila, porque não há instrumentos, nem papéis que o declarem; e se alguns houve, estes se perderam ou queimaram no tempo da guerra, em que também a mesma igreja padeceu ruína, e em que se perdeu todo o precioso dela.

Frei Agostinho mete Hostória da Restauração e Lenda no mesmo saco. E acrescenta no mesmo tom da rara ingenuidade:

Outros dizem que aparecendo a Senhora em uns tojas, fora o seu aparecimento (com os muitos milagres, que logo começou a obrar) o motivo de se mudar a vila para o sítio em que a Senhora, que teria muito que referir nas circunstâncias da sua manifestação, moveu os moradores da antiga vila de Mourão a lhe fundarem um formoso templo no mesmo lugar que logo se erigiu em paróquia e matriz e é priorado da Ordem Militar de S. Bento de Aviz.
Juntamente se foram logo levantado casas, até que a vila de todo se mudou à vizinhança da Senhora.
E eu tenho para mim que Nossa Senhora, como amorosa mãe que é dos pecadores, se manifestaria naquele lugar, para os livrar de uns e outros perigos.

sábado, 28 de setembro de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - LVIII - AGUIAR DA BEIRA

AS BAIONETAS DO PICOTO

Durante a terceira invasão francesa, uma ala do exército de Massena, dirigindo-se a Viseu, passava por Gradiz e subiu a Monções, no concelho de Aguiar da Beira. Fora uma marcha rápida e a tropa, de arma e mochila, chegou ali completamente derreada. E em Monções não estava ninguém, nem para os ajudar nem para eles descarregarem a raiva do que tinham suportado.
Revistaram todas as casas e nem uma côdea ou um copo de água. A população desaparecera da aldeia. Por fim, os soldados franceses arrombaram a porta da capela, onde havia uma imagem de Santo António. Pareceu-lhes que era a única coisa de valor que havia por ali e decidiram levá-la, abandonando de imediato a aldeia. Não sentiam nada de bom no ar.
E estava a tropa de Massena a começar nova marcha forçada quando os homens começaram a notar cintilações à distância. Na verdade eram as pedras húmidas da chuva na véspera. E conta a lenda que os franceses julgaram que se tratava da cintilação das baionetas dos exércitos aliados de Portugal e de Inglaterra e apanharam tal medo, que desataram a fugir pela Serra da Lapa fora, largando logo a imagem do santo. E Santo António voltou para o seu altar.
Bem, vamos agora voltar a nossa atenção para o lugar da Barroqueira, na freguesia de Forninhos, a pouco mais de três léguas da sede do concelho. Um pastor dali poderá guiar quem for até à entrada de uma gruta, disfarçada que está com silvedos e arbustos. Essa entrada, contam as gentes, foi feita pelos mouros. Lá dentro há um salão enorme, onde desaparecem as ovelhas que para lá entrem. Come-as uma moura. Aliás uma lindíssima moura encantada. Pois de cem em cem anos, no dia de S. Pedro, a moura sai da gruta e, com muito cuidado, para não ser vista, empoleira-se nuns penedos a olhar a lua que, estando em quarto crescente, lhe lembra a sua terra e os seus...


No entanto, também se diz que todas as noites, a moura corria currais de ovelhas e comia quantas podia, como se estivesse a saciar uma fome de cem pessoas! Ora, continua esta lenda, que é variante da outra, uma noite, um pastor, farto de prejuízos, levou o seu rebanho até ao pé da entrada da gruta. A dada altura, a moura saiu e ele apontou-lhe a escopeta que levava.
E sem querer saber da beleza dela, perguntou-lhe:
"Que andas a fazer?"
E ela respondeu-lhe, sorrindo:
"O que tu sabes..."
Zangado, gritou-lhe o pastor:
"Pois ou voltas para a tua gruta ou vai chumbada!"
Cheio de medo, a moura desapareceu num ápice. Bem, e acabaram-se assim as visitas aos redis e foi a última vez que ela foi vista na Barroqueira.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - LVII - CELORICO DA BEIRA

OS TRÊS MILAGRES

Dirija-se o leitor a Celorico da Beira, aí decerto encontrará placa indicativa da Aldeia Rica, a uns oito quilómetros. Siga pela estrada até lá chegar, onde não terá dificuldade em encontrar a igreja da Nossa Senhora dos Açores. Entre e repare em três painéis assim intitulados: "O aparecimento da Virgem ao rústico da vaca", "O açor pousado na mão do caçador" e "O filho rei, já ressuscitado". Pois aí acaba a lenda que vamos começar. Ora escutem.
Andava um pastor de Aldeia Rica com as suas vacas quando uma delas se espantou e caiu ao rio. Vai o homem a querer salvá-la e também ficou em  perigo de vida. Então ele lança um grito:
"Valei-me, minha Nossa Senhora!"

E o pastor e a sua vaca tresmalhada salvaram-se, não tardando que aquilo fosse levado à conta de milagre. E a população, sempre grata a estes sinais, ergueu uma pequena capela a Nossa Senhora. Também não tardou que se multiplicassem os milagres e a fé, a ponto da fama ter chegado a um rei de um recanto da Península.
Nesse pequeno reino, os monarcas viviam com o desgosto de não terem um filho. Sabedores das maravilhas operadas em Aldeia Rica, rezaram, a Nossa Senhora, que não os fez esperar mais do que o tempo devido. Porém, um acidente qualquer fez com que a criança ficasse defeituosa, o que amargurava muito os reis seus pais. Chamaram médicos de todas as partes, mas acabaram por se voltar, uma vez mais, a Nossa Senhora de Aldeia Rica.
Discutiram se deveriam pôr-se a caminho, dada a debilidade do filho. Venceu a mãe, que entendeu valer a pena a jornada. Porém, a criança desfaleceu e morreu quando até já nem faltava muito para terminaram a viagem aos pés de Nossa Senhora. Mesmo assim, em vez de permitir que lhe enterrassem o filho, a rainha quis levar o corpo nos braços para o deixar aos pés da Virgem. E o rei fez-lhe a vontade.
Quando chegaram a Aldeia Rica, a rainha foi cumprir o prometido. O rei saiu a caçar com os da sua comitiva. Às tantas, um dos seus homens largou em liberdade o açor que levava no braço. Denunciado, o rei logo julgou e mandou que lhe cortassem a mão direita. O homem defendia-se dizendo que os pássaros tinham o direito à liberdade.
E quando o executor se preparava para cortar a mão, o açor deu uma volta e colocou-se sobre ela. Ao mesmo tempo, a rainha dava um grito porque o filho recobrava vida e ficava curado dos seu males. Emocionado, o rei mandou soltar o prisioneiro, ordenando que soltassem imediatamente os outros açores. E ali mesmo mandou erguer uma igreja a que deu o nome de Nossa Senhora dos Açores, ainda hoje motivo de admiração de toda a gente.

terça-feira, 30 de julho de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - LVI - PENEDONO

UM DOS DOZE DE INGLATERRA

Alexandre Herculano o apurou na sua ronda por terras da Beira: o belíssimo castelo de Penedono foi morada dos antecessores do Magriço, u, dos Doze de Inglaterra, imortalizado opor Camões nos "Os Lusíadas". O seu verdadeiro nome era Álvaro Gonçalves Coutinho, que alguns autores dão como nascido na vila de Penedono. E no poema a lenda é contada por um marinheiro, numa das naus do Gama, quando seguiam de Melinde para a Índia. Vale a pena evocar-se esse feito de um notável filho desta vila.
Pois a lenda, para quem não estiver para ir buscar o seu exemplar do grande poema camoniano e repassá-la em versos alexandrinos, a lenda conta que, no reinado de D. João I, na corte da nossa recém-aliada Inglaterra, nada menos que doze damas foram agravadas por outros tantos cortesãos. Pois queixando-se as ditas ao duque de Lencastre, sogro do monarca português, logo este pensou que seria interessante  que as mesmas fossem desagravadas por doze cavaleiros portugueses. E lembrava-se ele de alguns bem galantes e possantes, que conhecera quando por cá andara a apoiar o futuro genro contra os castelhanos. E o desafio ficou no ar, tendo os nomes dos Doze de Inglaterra sido sorteados pelas damas ofendidas.
Tanto quanto se sabe, cada dama escreveu ao cavaleiro português que lhe coubera por sorteio, todas ao rei de Portugal e o Duque de Lencastre a todos. Assim, chegaram as cartas ao nosso país e não tardaram a partir do Porto os que viriam a consagrar-se como os Doze de Inglaterra. Houve, no entanto, um que não quis embarcar, preferindo  a Inglaterra ir por terra. Exactamente o cavaleiro de Penedono, o Magriço.

E não é que o Magriço foi u último a chegar ao torneio de Londres, mesmo em cima da hora? E os cavaleiros portugueses venceram os cavaleiros britânicos. Porém, é curioso como ao cabo de tanto protocolo arrolado na lenda esta história não seja descrita por nenhum cronista da época, seja ele português ou inglês. Por isso se inclinam as gentes a supor tratar-se de uma lenda. E está muito bem que o seja.
Bruno, por exemplo, entende que se trata da adaptação de uma justa ao tempo de Ricardo II, realizadas em Londres, em 1390. Mas Teófilo Braga, Faria e Sousa e Jorge Ferreira da Vasconcelos, entre outros, aceitam o episódio dos Doze de Inglaterra como facto histórico. Mas a verdade é que o livro "Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda"(1561), deste último, é a única obra que a tal se refere anteriormente ao poema de Camões. Na 2ª edição dos "Diálogos de Vária História" (1599), de Pedro de Mariz, é incluída pela primeira vez em prosa a narrativa do torneio de Londres. No seu estudo sobre a "Relação ou Crónica Breve das Cavalarias dos Doze de Inglaterra", Magalhães Basto refere que lá não diz que o Magriço chegou em cima da hora do torneio, afirmando que o primeiro combate foi com maças de ferro e depois à espada, não permonorizando se combateram a cavalo ou a pé.
Assim, o interessante desta lenda é a romântica façanha portuguesa em que participa destacadamente o Magriço, que, com um bocado de paciência, acabaremos por ver passear entre as barbacãs do castelo de Penedono, enquanto lemos em voz alta sua lendária aventura!

domingo, 30 de junho de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - LV - PENICHE

AFINAL, OS AMIGOS NÃO SÃO FALSOS
Pois quantas vezes proferiram a expressão "amigos de Peniche" na acepção de falsos amigos? Pois se o fizeram mais do que uma vez, outras tantas cometeram uma recortada injustiça. É bom que se preparem para uma revisão do conceito. Ora vamos lá por os ponto nos ii:
Falecendo o Cardeal D. Henrique, não deixando descendência confessada, logo três netos de D. Manuel I apresentaram-se com pretensões à coroa portuguesa. Eram eles Filipe II de Espanha, D. Catarina de Bragança e D. António o Prior do Crato. O primeiro fez prevalecer o poder da força e do dinheiro, D. Catarina pouco contou, mas o Prior de Crato obteve para a sua causa uns vinte mil homens e cento e vinte navios grandes e pequenos, num generoso gesto de Isabel Tudor, a monarca inglesa. Ora esta tropa desembarcou em Peniche a 26 de Maio de 1589. A guarnição da fortaleza não demorou a render-se, o mesmo acontecendo com Peniche. O general John Norris, que comandava a força, convenceu-se imediatamente que aquilo eram favas contadas para tomar Lisboa. Aliás, D. António julgava que a população. a um gesto seu, se poria do seu lado.
Assim, o Prior de Crato e os ingleses meteram-se a caminho de Lisboa. Na viagem, sem que o pretendente ao trono o pudesse evitar, por absoluta falta de meios, os ingleses assaltavam quanto podiam, apanhando as populações desprevenidas. E ao chegarem perto de Lisboa, foram recebidos a tiro de canhão pelos ocupantes espanhóis, o que os desconsertou. Os lisboetas estavam perplexos pois tinham ouvido falar que viriam os amigos de Peniche salvá-los do inimigo espanhol e, afinal era aquela horda indisciplinada, que logo se retirou do campo de luta, não cumprindo o acordado. E muitas esperanças se desvaneceram, estendendo-se aquela decepção aos próprios moradores de Peniche que, afinal, não tinham nada que estar envolvidos! E D. António teve de passar à clandestinidade. Conta Mariano Calado, historiador local, que um seu amigo ante a expressão "amigos de Peniche" na boca de alguém dizia sempre: "Olhe, meu caro, amigos de Peniche são uma cáfila de patifes que eu tenho encontrado por toda a parte, menos lá!"
Assim haja respeito pelos amigos de Peniche e cuidado é com as súcias que se arranjam, por muito boas que sejam as causas!

quinta-feira, 30 de maio de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - LIV - ALENQUER

ALÃO QUER E A MERCEANA

Eis a lenda da Merceana, tal como a contou o primeiro investigador na história local, Guilherme Henriques em 1873:
No centro de Alenquer está o templo majestoso em honra de Nossa Senhora da Piedade, objecto de um fervoroso culto durante quinhentos anos. Conta a tradição que em 1305 um pastor de Aldeia Galega, pastando seus bois nas charnecas vizinhas, notou que todas as tardes a certa hora lhe faltava um boi da manada chamado Marciano, tornando mais tarde a aparecer. Admirado do caso, espreitou o animal e, seguindo-lhe o rasto, foi achá-lo ajoelhado aos pés de um carvalheiro e entre a folhagem da árvore via-se uma imagem pequenina de Nossa Senhora.
O pastor apressou-se em  avisar o prior de Aldeia Galega e ele com os habitantes foram buscar a imagem, e a trouxeram para a igreja paroquial. Na mesma noite, a imagem desapareceu e foram achá-la novamente no carvalheiro. Entenderam que a Senhora assim queria mostrar desejos de estar para sempre naquele sítio e por isso lhe fizeram uma ermida ali mesmo, que logo se tornou muito concorrida pela fama dos milagres que por intervenção da Senhora se faziam.
O pastor que descobriu a imagem dedicou-se ao serviço da Senhora, servindo de ermitão da mesma ermida, e quando faleceu foi enterrado debaixo do altar dela. Nos anos posteriores os devotos vinham colher terra da sua sepultura para curar os padecimentos que os afligiam.
Seguindo a lição do mesmo cronista de Alenquer, eis a lenda do cão Alão Quer, donde terá nascida o topónimo:
Conta a tradição que na manhã do dia em que teve lugar o combate final, indo o rei cristão com o seu séquito banhar-se no rio e fazer as suas correrias, notaram que um cão grande e pardo, que vigiava as muralhas e que se chamava Alão, calou-se e lhes fez muitas festas. O rei, tomando isso como um bom presságio mandou começar o ataque dizendo: "O Alão quer!", palavras que serviram como futuro apelido à vila. A batalha foi sanguinolenta e renhida e os cavaleiros cristãos fizeram prodígios de valor. Especialmente no postigo próximo onde estava a igreja de Santiago, a luta foi renhidíssima, mas os portugueses inspirados pela fé que Santiago em pessoa pelejava na sua frente, venceram todos os obstáculos e tomaram a praça.

Há uma segunda tradição que diz que o cão Alão era encarregado de levar as chaves na boca todas as noites, pela muralha fora, até à casa do governador. Os cristãos, aproveitando os instintos do animal, prenderam uma cadela debaixo de uma oliveira à vista do cão que para lhe chegar galgou os muros, passando assim as chaves aos portugueses.

terça-feira, 30 de abril de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - LIII MONTIJO -

O LEME DOIDO

Uma das mais antigas e concorridas romarias ribatejanas era a da Nossa Senhora da Atalaia nos arredores da actual cidade de Montijo. A capela era então rodeada de muitos e fortes pinheiros, que toda a gente respeitava por considerarem ser propriedade da Senhora. Com os tempos, o arvoredo praticamente desapareceu, mas há uma lenda que remota a Filipe II de Espanha, I de Portugal, em que a primeira tentativa de derrube daquele pinhal teve efeitos negativos.
Pois a lenda conta que o rei espanhol de Portugal, apesar de ser extremamente religioso, não viu inconveniente de maior em aproveitar aquela madeira para uso dos seus calafates na construção de embarcações. Houve até quem dissesse que essas naus se destinavam à chamada Armada Invencível para a inglória tentativa de conquista de Inglaterra. Assim, os calafates da Ribeira dirigiram-se ao outro lado do Tejo a marcar, perto de Montijo os pinheiros daquele e doutros lugares.Junto da capela de Nossa Senhora da Atalaia marcaram as árvores que lhes pareceram melhores.
Depois, dias passados, foi a vez dos lenhadores cortarem os pinheiros marcados. Porém, bem admirados ficaram ao descobrir que, afinal, as árvores marcadas pelos calafates eram tortas e sem préstimo algum! Nenhuma servia, mesmo assim, os lenhadores, para não regressarem de mãos a abanar, eles próprios fizeram a escolha de um pinheiro.
Essa pouca madeira, nos estaleiros da Ribeira das Naus, com grande esforço, acabou por se transformar num leme. Naturalmente, o leme foi colocado numa das embarcações. No entanto. nunca ele serviu para governar a nau. Chamavam-lhe o leme doido! Sabedores do sucedido, os de Montijo cada vez mais se convenceram do respeito devido aos pinheiros da capela de Nossa Senhora da Atalaia. Porém, com os tempos, acabaram por contá-los quase todos...

Bem, mas outra localidade deste concelho tem uma lenda na sua origem. Trata-se de Aldeia Galega, a que uns chamam assim, outros Alda Galega de Ribatejo, outros Aldegalega, ainda outros Alda a Galega! O galega é a constante. Mas num velho panfleto se dizia: "Basta de sarcasmo! Chamar galega a uma povoação de sete mil verdadeiros portugueses parece-me um verdadeiro absurdo!" Reclamava-se, sem resultados positivos, a alteração do topónimo para Alda. É que se diz que esta terra nunca foi povoada por galegos, com acontecia a outras localidades. E, no entanto, já na documentação oficial do séc. XVI a designação é esta que os da terra rejeitam de quando em vez. Os padres Carvalho Costa e Luís Cardoso, nas suas obras fundamentais falam de uma Alda galega que teve uma taberna à beira-rio, e que a mesma era muito frequentada por quem seguia do Alentejo para Lisboa. E em torno dessa veda formou-se a povoação a que foi dado o nome de Aldeia Galega, uma espécie de assunção oficializada da corruptela! É desse comunidade que se formou em torno da venda de Alda que descendem quantos lá vivem, mais nada...

sexta-feira, 29 de março de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - LII - NELAS -

A SENHORA DA TOSSE

A veneração da Senhora da Tosse bem pode gabar-se de ser razão principal de uma aparatosa procissão e boa romaria com ares de feira. Na segunda-eira de Páscoa. O seu cenário é o lugar do Folhadal, no concelho de Nelas. Ora na Póvoa de Luzianes, em Senhorim, ainda neste município, há uma outra lenda que tem de comum com aquela o facto das protagonistas também serem três. Veja-mos então a da Senhora da Tosse, tal como a conta José Pinto Loureiro (Concelho de Nelas, 1957, 2ª ed.):

Apareceram, não se sabe quando, três irmãs no olival de Santa Maria, ainda hoje conhecido por esse nome, junto de Rio Mondego. Tinham todas o mesmo nome e combinaram separar-se no mesmo dia: uma ficou na capela existente naquele olival, outra foi para a capela das Pedras Ruivas e a terceira para a da Felgueira Velha. Os moradores do Folhadal foram buscar várias vezes a primeira, que traziam para a povoação, mas no dia seguinte aparecia novamente na capela do olival de Santa Maria. Por fim, trouxeram-na em procissão para a capela do Folhadal, donde nunca mais saiu.
As três Senhoras teriam combinado ficar perto umas das outras para se verem mais frequentes vezes.


Ora gente com problemas de garganta, sobretudo tosse e rouquidão, começaram a afluir à capela do Folhadal, obtendo as graças da cura. E os pagadores de promessas podem ver-se no dia da festa ou, mais discretamente, noutras alturas menos concorridas, andando de joelhos em torno do pequeno templo.
Quanto à lenda respeitante à Póvoa de Luzianes, Pinto Loureiro diz que:

...houve em Nelas três irmãs de nomes Maria, Luzia e Ana. Seus pais deixaram-lhes duas quintas, uma na margem do Mondego e outra que dava passagem para esta, muito menor que a primeira.
Combinaram ficar a Maria na menor, construindo aí uma casa onde viveu até morrer, e ao local ainda hoje se chama Póvoa da Maria. As outras foram para a quinta do Mondego, aí construíram casas e deram origem a uma povoação muito fértil, que se tem desenvolvido progressivamente, de nome Luzia Ana, denominada Póvoa de Luzianes.

Há ainda uma lenda de contornos trágicos, que envolve o infante D. João, filho de Inês de Castro e de Pedro o Cruel. Este casou com uma irmã de Leonor Teles, a viúva Maria Teles, impondo-lhe segredo sobre o laço. Ela terá contado e ele, considerando a infidelidade - esta e não outra - enfureceu-se apunhalando-a. Mas esta lenda está enredada de tal modo em factos e figuras históricos em que há muitos dados que não conferem.
Fiquemos-nos, pois, com o cadáver da viúva e pronto.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - LI - ÓBIDOS -

A PORTA DA TRAIÇÃO

Correndo o ano de 1148, conquistadas Lisboa e Santarém, D. Afonso Henriques tinha montado o cerco a Óbidos desde os primeiros dias de Novembro. Na noite de 10 de Janeiro, na sua tenda, o rei conversava com um dos seus melhores cabos de guerra, Gonçalo Mendes da Maia. Comentavam que aquela demora dos mouros se renderem assentava no bem abastecidos que estavam, pelo que só um ataque de rompante poderia acabar com aquele compasso de espera. E quando cada qual recolheu à sua cama, ficara assente esse ataque em grande para a madrugada do dia seguinte.
O acampamento português estava vigiado por umas quantas sentinelas, mas a verdade é que um vulto conseguiu esgueirar-se entre elas e penetrar na tenda de Gonçalo Mendes da Maia, acordando-o. O guerreiro ficou abismado como tudo aquilo aconteceu e mais ainda ao verificar que se tratava de uma rapariga de rara beleza, que dizia ter saído do próprio castelo e estar ali para que ele a levasse ao rei, a quem queria comunicar uma mensagem urgente. Lá de quem era, não sabia, pois lhe fora transmitida em sonho por um jovem cavaleiro de alvas barbas. Admirado com tudo aquilo, Mendes da Maia entendeu levar a intrusa ao rei, que ele próprio acordou.

D. Afonso Henriques ouviu atentamente a jovem, que não era exactamente moura. Lembrou-se da aparição de Cristo na véspera da batalha de Ourique e considerou aquele novo encontro de grande significado. A rapariga revelou o conteúdo da mensagem do cavaleiro que lhe aparecera no sonho. Acrescentou que tivera o sonho três noites seguidas e, finalmente, se dispusera a cumprir as ordens assim recebidas:
~"Ele disse-me que fosse ao acampamento dos seus homens, para lá das muralhas. Cá estou. E foi claro: Procura primeiro a tenda que fica ao lado direito da do rei Afonso. A do rei é a maior e tem uma cruz. Acorda o cavaleiro que lá dorme e diz-lhe que te leve à presença do rei. Depois, dirás ao rei Afonso que reúna os soldados e que os conduza a um ataque de surpresa na parte fronteiriça do castelo. Isto logo que a manhã chegue. Por outro lado, Gonçalo Mendes da Maia irá com dez dos seus homens pela parte oposta. Então aí tu abrirás a porta e eles entrarão sem que ninguém se aperceba, pois os mouros estarão atraídos no combate com o rei. Será a vez de Mendes da Maia fazer os seus estragos e dispersar as atenções. Assim, Óbidos passará para as mãos dos portugueses!"
E aconteceu o previsto. Mendes da Maia entrou pela porta das traseiras do castelo de Óbidos, aberta pela jovem que facilmente se livrou de duas sentinelas sonolentas. E lutavam já os portugueses dentro quando se ouviu o berro de que tinha havido traição, que a porta fora aberta aos cristãos!
A rapariga é que nunca mais foi vista. Teve o seu desempenho e desapareceu. Ela e o jovem cavaleiro de barbas brancas, em quem D. Afonso confiara, nem em sonhos voltaram aparacer.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

LENDAS DE PORTUGAL - L SÃO PEDRO DO SUL -

O MORTO QUE MATOU O VIVO

Lá para Covas do Rio, a cinco léguas de S. Pedro do Sul, conta-se a lenda do morto que matou o vivo. Dizem que foi entre a aldeia da Pena, que na altura ainda não tinha cemitério, e a aldeia de Covas, que o tinha. E o trajecto era forçosamente feito a pé, em que havia quatro homens para o transporte da urna. Pois a dada altura, conta o povo, um dos homens de trás, lá escorregou ou coisa assim e os outros não seguraram tão bem e o caixão caiu-lhe em cima, matando-o! Foi assim que o morto matou o vivo, dizem por lá...

Pois bem, neste concelho fica a Serra de S. Macário, cujo cimo sobe a mil metros.Pois conta a lenda que "Macário era caçador e, num dia de caça, acompanhado de seu pai, pensando que arqueava a flecha contra um javali, feriu mortalmente o pai. Em desespero, correu de um lado para o outro o sucedido, mas sem nunca ter coragem de voltar a casa. Daí em diante viveu sempre na Serra em isolamento, sobrevivendo de esmolas e penitenciando-se pelo seu erro. "Um dia pediu a alguém que lhe desse um montinho de brasas para fazer uma fogueira. Obtendo a graça do seu benfeitor, pegou as brasas com as mãos sem se queimar, ficando desde aí com o nome de santo. Morreu e viveu nesta serra junto à capela onde ainda hoje muitas pessoas o veneram. Em seu nome é feita uma festa anual que ocorre no último domingo de Julho."
Desde que foi feita a Ponte do Cunhedo sobre o Vouga, é muito simples a passagem do rio, não importa a estação do ano. Porém, esta lenda passa-se - se é verdade que as lendas se passam fora da cabeças das pessoas - quando ainda não havia tal passagem, embora o convento de S. Cristóvão já lá estivesse. Bem, e estamos numa bela manhã de Junho, acompanhando a jornada do frade superior dessa pequena comunidade religiosa. Na sua bela égua Estrela, o frade acompanha a margem direita do Vouga. Vai devagar, gostava daquele longo passeio que lhe proporcionara uma vista pastoral. Umas roupas aqui, um dinheirito ali, boas palavras além, conhecia bem aqueles descaminhos, mas também se confiava ao instinto do animal. Dera uma boa volta e regressava satisfeito. Mas o tempo é que estava a mudar de aspecto conforme entravam as negruras da noite.
A égua era fina e o cavaleiro dava-lhe rédea solta, para lhe evitar constrangimento, mas ela parara e acenara com a cabeça, como a dizer ao frade  que se segurasse bem porque o pior ainda estava para vir. E o pior eram as poldras, que ela soube atravessar com extremo cuidado. E daí a pouco o frade estava no convento, quase sem dar por isso.
Nessa noite, ele soube que, apesar de tudo, passara por milagre o Rio Vouga. Não era só a sabedoria da Estrela a salvá-lo, e no dia seguinte voltou ao sítio das poldras e, desmontando, ficou estarrecido, vendo claramente o perigo por que passara. Era tamanhos os estragos que a tempestade da véspera fizera! De repente, sentiu um frémito percorrer-lhe o corpo, encostou-se ao pescoço da égua e apercebeu-se que o rio já não era o Vouga, mas outro, muito mais longo e profundo. Já apoiado numa árvore, cadáver há já umas horas, aí o foram encontrar outros seus irmãos que o procuravam.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

LENDAS DE PORTUGAL - XLIX CANTANHEDE -

RELÍQUIA DO PÃO E QUEIJO

Querem ver como se desfaz uma lenda sobre a origem de um topónimo? Pois diz o povo que havia uma moura chamada Nhede que costumava cantar à noite.
Voz maviosíssima, uma noite passou-lhe sob as janelas um homem que não se conformava que ela se calasse sequer um breve instante e suplicava:
"Canta, Nhede! Canta, Nhede!"
Mas acontece que Cantanhede veio do latim Cantinieti (villa), isto é "(quinta) da canteira ou (pedreira) de cantaria". Cantonietum é um substantivo colectivo, tirado de cantonius e este de cantus, "pedras". Em 1807, Cantonied e Cantoniede! É assim...
Mas a freguesia de Ançã foi o espaço geográfico a que foi confinado pelo rei D. Pedro II o Marquês de Cascais. E ali passou os seus últimos dias. Ora conta a lenda que o marquês, habituado à boémia na capital, onde também tinha todos os seus negócios, resolver arranjar um expediente que lhe permitisse desobedecer - e não desobedecer - à ordem real de não abandonar a terra de Ançã. E, assim, mandou cobrir o chão da sua carruagem com a referida terra, levando mais uns sacos dela, que espalhou por todo o seu palácio.
Sabedor que o marquês se encontrava em Lisboa, o próprio rei foi-lhe pedir contas da desobediência, mas o fidalgo respondeu-lhe:
"Desde o meu desterro não deixei de calcar e pôr o pé na terra do degredo, na terra de Ançã."
Pois na porta principal da capela de S. Bento, nesta mesma Ançã, há uma inscrição cujos dizeres dizem, mais ou menos, o seguinte: Esta Santa Casa se fez de esmolas no ano de 1599, no qual havendo a peste geral em todo este reino durou por muito tempo e nesta vila por interferência do glorioso S. Bento não durou mais que vinte dias. Na verdade, a grande epidemia pestífera do século XVI devastou toda a Zona Centro. Porém, aos primeiros sinais, o povo de Ançã rezou a S. Bento, que o protegeu!
Pois em Ançã se festejam devotadamente os aniversários do seu padroeiro. E as cerimónias tinham tal demora, que os padres levavam sempre uma merenda de pão e queijo não só para seu sustento como para as crianças que, esfomeadas, assistiam. Ao longo dos tempos, tornou-se uso da festa beneditina a distribuição de pão e queijo no final  dos actos litúrgicos.
E o curioso é que este pão e queijo passou  a assumir importância de relíquia, pois muitos fiéis não o comem, antes o levam para suas casas, onde dizem se conserva anos sem apanhar bolor.
E ainda hoje, os irmãos de S. Bento, após o pagamento das suas quotas e, eventualmente, de promessas, levam para casa as já célebres relíquias de pão e queijo. Também na Mezinha de S. Sebastião, Couto de Dornelas, em Boticas, se guarda pão com a mesma crença de não criar bolor e proteger.


terça-feira, 27 de novembro de 2012

LENDAS DE PORTUGAL - XLVIII CONSTÂNCIA -

O PELOURINHO DO MILAGRE

Pois era uma vez um senhor de terras que era do priorio. Tinha escravos e muitas vezes os mandava chicotear e enforcar. Fazia sofrer toda a gente. E assim, de uma vez em que apanhar um dos pobres homens na posse de uma laranja, acusou-o de roubo e quis logo que o enforcassem logo ali. Não lhe importava que ele tivesse apanhado a laranja para matar a sede! O escravo, vendo-se perdido, rezou quanto pôde à sua  santa protectora e seta resolveu ajudá-lo. Assim, no momento em que lhe punham a corda à volta do pescoço, a santa apareceu e disse assim:
"Não há direito que condenem um homem à morte só por ter apanhado uma laranja para matar a sua fome e sede!"
Logo a corda desapareceu e a santa, voltando-se para quem alai estava, continuou:
"E fica aqui este Pelourinho para, cada vez que o olharem, se lembrem deste e doutros momentos vergonhosos!"
Também, antes de se ir embora, deixou ali um livro com os direitos e os deveres do Homem. Quem for a Constância, passando pela Praça de Alexandre Herculano, facilmente poderá ver o Pelourinho do Milagre!

Mas o leitor quererá saber o porquê da mudança do topónimo da cabeça deste concelho. Foi Punhete e é Constância. Quantas lendas deveremos deixar-lhes? Pois há uma que diz tratar-se de uma homenagem a um grande amor. Que ao tempo das lutas liberais, o rapaz de uma família de miguelistas apaixonou-se por uma rapariga de uma família de liberais. Apesar da oposição de todos, os jovens casaram-se e foram felizes. Quis o acaso que, um dia, a rainha D. Maria visitou Punhete e hospedou-se em casa deles. Ao jantar contaram-lhe a história do seu amor. Comovida, a rainha disse:
"Devido a constância do vosso amor e à beleza desta terra, que é tão bonita e tem um nome tão feio, a partir de agora passará a chamar-se Constância."
Já em Montalvo se conta que a rainha Constança andava a passear naquela região e passou por Punhete.Os habitantes, que não andavam contentes com o topónimo. aproveitaram a presença da rainha e mudaram o nome da povoação para Constância, homenagem que ela aceitou...
Mas há ainda uma outra lenda, com um toque de macabro. Pois esta conta que no fundo de um rio de águas límpidas, havia um esqueleto a dizer adeus com a sua mão ossuda. Às tantas, o esqueleto ergueu-se, transformando-se lentamente numa linda princesa. E quando ficou completo, falou:
"Sou uma princesa encantada e chamo-me Constância."
Depois fez construir o seu palácio, que ainda hoje existe. E a vila passou a chamar-se Constância. Porém, neste caso, o leitor não se lembrará que a designação de Punhete durou mais do que a lentidão do esqueleto a erguer-se?
Mas as lendas são assim mesmo!

terça-feira, 30 de outubro de 2012

LENDAS DE PORTUGAL - XLVII AVIS -

A CORRENTE DE OURO

A lenda é da freguesia de Benavila que, ao tempo do que se conta, era Boena Vila. D. Dinis deu-lhe foral em 1296, chegou a ter castelo, mas hoje nada se sabe dele. Pois ali viviam duas famílias rivais, o espanhol González Butrón e o português Pedro de Miranda. Este era casado com uma senhora da casa de Guevara, de quem tinha uma filha, a bela Madalena. Os chefes de ambas as famílias evitaram encontrar-se, mas sabiam que uma delas teria de abandonar a região. Por isso, Pedro de Miranda mandou dizer ao inimigo que sendo Avis terra portuguesa, ele é que teria de ceder. Furioso, Butrón decidiu mudar o ruma das coisas.
Mas, com doze anos. Madalena estava apaixonada por José, um pastor de 15 anos, de família com posses. Amavam-se em segredo. Ora numa tarde em que ambos tinham planeado encontrar-se, o rapaz apareceu afogueado, a querer saber do paradeiro de Miranda, pois soubera de uma cilada que, junto a uma ponte, lhe montara o Butrón. E lá foi ao encontro do pai da Madalena. Preveniu-o, mas Miranda desconfiou, mandando verificar. Não tardou a confirmá-la e ficou muito agradecido ao moço pastor, compensando-o com uma corrente de ouro. Embora José nada quisesse aceitar, disse-lhe que se precisasse dele, bastaria mostrar aquela corrente.
Passados tempos, Butrón mudou-se com os seus para Espanha e um sobrinho de Miranda veio viver para as vizinhanças dos seus parentes. Logo Miranda pensou em casar a filha com o primo, mas Madalena continuava amar José, que viera alferes dos campos da guerra. O confessor da rapariga ajudou-a, fazendo com que o bispo não consentisse no casamento por serem parentes próximos. Porém, de ânimo exaltado, o primo decidiu forçar Madalena no seu próprio quarto, numa daquelas noites. Entrando-lhe no quarto por meio de chave falsa, a situação que criaria obrigaria ao casamento. Só que José tinha quem o informasse de tudo e na noite marcada pelo sobrinho de Miranda, conseguiu entrar no quarto da Madalena primeiro que o primo dela. Contou-lhe o que se passava e convidou-a a acompanhá-lo, que a levaria para um convento, onde tratariam depois do casamento. E ambos desciam pela corda ao mesmo tempo que o primo entrava no quarto. Apercebendo-se da fuga, cortou a corda e os dois namorados caíram de grande altura, encontrando a morte no embate dos seus corpos nos rochedos.

O primo saiu do quarto, mas nas escadas deu de caras com Pedro de Miranda que quis saber o que é que ele fazia ali, mas ele respondeu-lhe evasivamente e fugiu. Logo depois, no quarto da Madalena, Miranda percebeu o que se passara. Quis ver quem era que queria fugir-lhe com a filha e viu o cadáver de José, que reconheceu apenas pelo cordão de ouro. Sensibilizado por tão grande amor, Pedro de Miranda mandou erguer uma cruz no lugar em que caíram os namorados, com a inscrição: Madalena e José. Rezem um Padre Nosso pelas suas almas.

domingo, 30 de setembro de 2012

LENDAS DE PORTUGAL - XLVI OLIVEIRA DO HOSPITAL -

O CASTELO DE AVÔ

Ante as ruínas do castelo de Avô, a primeira pergunta que é: que avô? Avô de quem? Quem se lembrará que o Avô será o velho Egas Moniz, educador e conselheiro de D. Afonso Henriques? E se há um avô, decerto haverá, ao menos, um neto. Quem é este? Pois é Pedro Afonso Viegas, o neto predilecto desse tal avô. Entretanto, para conhecerem a lenda queiram fazer o favor de entrar nos aposentos de Egas Moniz. E sentem-se.
Como devem calcular, estamos no reinado de D. Afonso Henriques e Egas Moniz, que o educou, atingiu provecta idade, mas deseja confiar o seu cargo de conselheiro a assessor do rei ao melhor dos seus parentes. Por isso o mandou chamar e com ele conversa. Inclusive mete-se com ela pelos amores que tem com D. Urraca, a filha bastarda dilecta do rei. Estão bem um para o outro, precisam é de marcar casamento.
-Daqui em diante, meu neto Pedro Afonso, andarás sempre comigo.
O Jovem mostrou-se muito agradado com a decisão do avô e soube encontrar palavras para lho transmitir e o tom chegou a comover o velho aio do Fundador. Porém, em dada altura, soaram as trombetas e começou um grande alvoroço. Pedro Afonso saiu a ver o que se passava, não tardando com a mais cruenta da novidades: a mourama estava de volta!
Egas Moniz deixa de estar alquebrado e pede logo a cota de malha e a sua poderosa espada, o escudo, o cavalo. Manda montar e sair toda a tropa para dar combate ao inimigo. O velho leão, na ausência do rei, encabeça a força e sai à peleja.
Foi uma batalha dura, mas galvanizada pela presença do neto Pedro Afonso a seu lado. Queria mostrar-lhe como era e também avaliar o jovem na luta. Ficou Egas Moniz satisfeito com ambas as prestações. No calor do confronto, adiantou ao seu sucessor que a terra ali conquistada aos mouros seria a sua prenda de casamento. Mas alto foi o preço pago pelos contendores, que muitos soldados ficaram para sempre estendidos.
E, mais tarde, quando D. Pedro Afonso foi dar à notícia a sua noiva, dizendo-lhe que já tinham terra para começar a vida, prenda do avô, a jovem estava emocionada não só pela batalha travada como pelo seu amado ter escapado de ser ferido. E prometeu que iria beijar as mãos a Egas Moniz em sinal de agradecimento. Depois, confessou a Pedro Afonso Viegas que passara o tempo da refrega em oração.
-Mas, dizei-me, Pedro Afonso, meu pai e nosso rei não se oporá ao nosso casamento?
O jovem cavaleiro sorriu e respondeu-lhe que se contavam com a benção de Egas Moniz, isso queria dizer que o rei Afonso Henriques já deveria ter concordado há muito tempo. Era o sinal d amizade que tinha muitas dezenas de anos!
E se Egas Moniz construiu o castelo que passou a ser designado, em sua honra, por castelo do Avô, para vigiar as terras conquistadas, o rei mandou fazer junto dele uma igreja expressamente para o casamento da sua bela bastarda. E assim se construiu a Terra do Avô.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

LENDAS DE PORTUGAL -XLV - AVEIRO -

A herança do Tio Marcos

Esta lenda é dos antigos tempos aveirenses, em que a festa de S. Pedro marcava a vida das populações dali. E começa com o Tio Marcos, tombado no seu leito de morte, segurando as mãos dos seus filhos Albino e Jorge, se prepara para a longa jornada sem regresso. Tinha-os educado no caminho da rectidão e do trabalho e queria assim se mantivessem.
"Meu querido Albino, tu és o mais velho. Não deves esquecer-te de quanto te ensinei, ouviste?"
E o filho jurou ao pai que nem um só momento esqueceria as lições recebidas.
"Respeita sempre o teu irmão, Jorge, ele é o mais velho. Gostaria que vocês fossem um nó tão apertado que ninguém o pudesse desatar!"
Comovidos, os filhos disseram ao velho que poderia confiar neles. O Tio Marcos disse-lhes que assim poderia morrer descansado mas, antes, queria entregar-lhes a herança. E de debaixo da sua almofada tirou um pequeno saco.
"Está fechado e só o abram quando estiverem verdadeiramente aflitos. Não é muito, mas é o que vos posso deixar. Guarda-o tu, Albino, mas lembra-te que isto é de ambos! É leve, mas vale uma fortuna. Mas primeiro contai com o vosso trabalho!"
E lá se foi o bom Tio Marcos. Os dois rapazes guardaram o saco e voltaram ao trabalho, que tinham bons braços para isso. E corria tudo muito bem para eles até que, um dia, chegou uma rapariga muito bonita à aldeia. Dizia-se que fugira de casa por não querer casar com o homem que o pai queria por força e ela odiava. E muitos rapazes da aldeia ficaram enamorados dela, incluindo o Albino e o Jorge. E ela a todos dava esperanças. Porém, aquela situação começou a criar problemas entre os dois irmãos, que chegaram a relaxar o próprio trabalho, além da amizade que os unia. Chegaram mesmo a discutir. Qualquer deles presumia ser o rapaz de quem ela gostava. Depois da discussão, cada um deles procurou a bela rapariga e combinou fugir com ela da aldeia logo depois das festas de S. Pedro. Um e outro se prontificou a deitar a mão ao saco, onde estava a herança do Tio Marcos. Porém, a rapariga conseguiu dar cabo da cabeça a um e a outro, sugerindo-lhes que matasse o irmão. E eles, na inconsciência da paixão, nem se lembravam das palavras amigas do pai.
Ora a noite de S. Pedro, em pleno arraial, Albino e Jorge encontraram-se frente a frente. O primeiro tinha na mão o saco da herança do Tio Marcos. Ali mesmo os irmãos engalfinharam-se. Pareciam dispostos a matar. De repente, ouviu-se uma voz: "S. Pedro, valei-me!" E o próprio S. Pedro apanhou o saco e abriu-o. Dentro estava apenas um nó apertadíssimo. Os irmãos olharam-no e caíram em si. Houve um estrondo e a rapariga por quem lutavam desfez-se em fumo. Abraçaram-se e entenderam que estiveram a ponto de ceder ao demónio tudo de bom que neles havia!

terça-feira, 24 de julho de 2012

LENDAS DE PORTUGAL -XLIV - CASCAIS -

A BOCA DO INFERNO

Uma gigantesca cova eriçada de penedos escuros, onde as águas do mar fazem redemoinhos, eis a Boca do Inferno. Todos julgam conhecer o lugar, mas quantos lhe conhecerão a lenda? A lenda diz que houve ali um castelo onde vivia um homem de mau aspecto, que se dedicava às artes diabólicas. Era um feiticeiro. Há quanto tempo foi? Pois passaram-se já tantos e tantos anos, que não sabemos. Vejamos o que se terá passado.
O feiticeiro, certo dia, decidiu casar-se. E logo disse para com os seus botões que teria de ser com a mais bela menina do termo de Cascais. Como tinha uma bola mágica, consultou-a. E logo lhe apareceu espelhado nela o mais belo rosto que jamais vira. Assim, logo ordenou que um grupo dos seus cavaleiros a fosse buscar. E quando ela foi conduzida à sua presença, o feiticeiro pensou que a bola não estaria a funcionar muito bem, pois a menina era muito mais bela do que ela lhe mostrara. Porém, tão feroz era o feiticeiro e os seus modos tão grosseiros, que a menina sentiu por ele imensa repulsa.
Furioso por não se poder fazer amar pela menina, mandou encerrá-la na torre mais negra do seu castelo. E, como guarda, escolheu um cavaleiro que nunca a tivesse visto. E assim, a menina e o cavaleiro ficaram ambos prisioneiros do castelão das artes diabólicas. Só que ele tinha as chaves e estava no rés-do-chão, vigiando a porta que dava acesso às escadarias da torre. Ali ficou ele, com o seu cavalo branco, a sua espada e uma infinita paciência, pois ninguém o iria substituir.
E passaram-se os meses. Até que um dia, o cavaleiro, cansado de ouvir o marulhar e curioso, muito curioso, de saber quem guardava, entrou na torre. Subiu as escadas, que rangiam, passou teias de aranha e ratazanas, e foi à cela do alto, da qual ele, como guardião, tinha também a chave. Não sabia o que lá poderia estar. Sabia que era alguém, mas quem?
A medo do que poderia estar do outro lado da porta, rodou a chave na fechadura. Encontraram-se menina e cavaleiro e ficaram a olhar um para o outro, apaixonados. Então, logo decidiram fugir. E, nessa mesma noite, subiram ambos para o cavalo branco do cavaleiro e partiram à desfilada.

Ao ver o que se passava na sua bola de cristal, zangado, o feiticeiro abriu a noite em clarões de tempestades e eles a isso resistiram. Então, num gesto poderoso de magia, rasgou o chão de toda aquela zona e ficou a boca enorme, que todos hoje conhecemos, com negros e aguçados penedos como dentes podres, uma bocarra infernal que tudo parecia engolir.
E engoliu o castelo com toda a gente que lá vivia, o próprio feiticeiro, e os arredores do castelo foram tamb´+em tragados. Assim, na Boca do Inferno desapareceram também os namorados, que fugiam no cavalo branco. E se a lenda não é do conhecimento de muitos, por esquecimento ou porque nunca a ouviram contar, basta o nome do lugar para fazer adivinhar quanto mal ali foi praticado. O que se poderia, então, esperar daquele sítio, a que a voz dos povos de distantes séculos chamam sempre Boca do Inferno?